As grandes emoções cabem todas no tapete
“A Matilde, depois de ter assistido a um filme infantil onde aparecia uma personagem que era um vulcão em erupção a quem chamava de "Monstro de Fogo", passou a ter dificuldades em circular ou permanecer sozinha numa divisão.
Por mais que lhe explicássemos que era apenas um desenho animado, ficção, que não existia, e que ela era forte e poderia vencer os seus medos, a Matilde pura e simplesmente não conseguia. Eu e o pai conseguíamos ver que se sentia realmente assustada e ela dizia que não conseguia porque se lembrava do "Monstro de Fogo" e ficava com medo.
Um dia, na aula de Yoga, a Rita falou sobre os medos, referiu que é normal que os tenhamos mas que podemos "arrumá-los"! Cada uma das crianças partilhou o seu medo. A Matilde falou do seu "Monstro de Fogo".
A pedido da Rita, cada uma das crianças desenhou num papel o seu medo, no final da aula foi-lhes pedido que dobrassem o papel e o guardassem. Os seus medos estavam agora ali a descansar, arrumadinhos.
Foi uma aula muito bonita, mas o que quero partilhar nesta mensagem, foi o que aconteceu depois deste momento: a Matilde passou a circular sozinha pela casa sem qualquer receio e dizendo mesmo que às vezes se lembra do "Monstro", mas que já não se assusta! Foi um acontecimento mágico nos nossos dias e a Matilde está agora bem mais segura do seu poder de "arrumar" os seus pensamentos.“
Às vezes dou comigo a pensar nisto: no momento em que uma criança de 3 anos usa a respiração que aprendeu nas aulas para não entrar em stress no supermercado. Ou a de 4 que, em vez de dar um murro, faz a postura do leão e ruge de língua de fora. Pequeninos para explicar o que aconteceu, mas grandes o suficiente para já saberem o que fazer.
Eles não têm teoria nenhuma por trás deste comportamento. Aprenderam com o corpo.
E isto é uma das coisas que me fascina neste trabalho com as crianças. Os mais pequenos têm mais dificuldade em processar as emoções pela razão, fazem-no muito mais facilmente pelo movimento, pelo som, pela imitação. Quando estão com raiva, precisam soltar. Quando estão com medo, precisam de se sentir seguros. Quando estão ansiosos, precisam de uma âncora.
É aqui que o yoga entra.
Quando o pássaro aparece no livro a respiração vem naturalmente: inspira fundo levanta as asas, expira e baixa as asas. Quando o sapo salta, é a energia a sair pelo sítio certo. Não é por acaso que estes animais entram nas sessões de yoga, é porque cada um deles tem alguma coisa para ensinar sobre como o corpo lida com o que sente e onde o sente.
Para os pais, o impacto chega mais tarde e de forma subtil. Um dia aparece numa brincadeira, noutro numa birra que não escalou. Acredito que é a sementinha do yoga a fazer o seu trabalho, assim como foi com a Matilde.